Enquanto arrumava seu chapéu de cowboy, sua filha Úrsula Almeida pensou alto. “Gente, amanhã já é o último dia de maio”. Orlando colocou o chapéu, fixou seu olhar para a esposa Francisca (85), que estava ao seu lado na cama, e largou: “então é nosso aniversário de casamento! Quem está fazendo o pirão pra comemorar?”, disse, aos 98 anos, já com a memória debilitada, mas sem esquecer o dia do matrimônio: São 70 anos de casamento comemorados no domingo (31).
Só para se ter uma ideia,
apenas 0,1% de casais no mundo chegam a este marco, considerado bodas de vinho.
A comemoração não poderia ser outra. Reunião entre família e amigos, numa tarde
repleta de queijos e muito vinho. Ou quase isso. “Quero conhaque também”,
sugeriu Orlando. “Cerveja também e faz uma galinha caipira”, completou. De
fato, só frios não renderia na comemoração. Fora os amigos e familiares, são 10
filhos, 12 netos e cinco bisnetos.
O Brasil que testemunhou
o casamento de Francisca e Orlando era muito diferente do país de hoje. Naquela
época, as famílias se reuniam em torno do rádio, as cartas ainda eram um dos
principais meios de comunicação e a televisão era artigo de luxo. Ao longo de
70 anos, o casal viu o mundo mudar diante dos seus olhos: acompanhou avanços
tecnológicos inimagináveis, transformações políticas, mudanças nos costumes e o
surgimento de novas gerações. Mas, em meio a tantas revoluções, algumas coisas
permaneceram intactas: o amor, a fé, e o companheirismo.
A história começou em
Canavieiras, no sul da Bahia. Foi na Igreja de São Boaventura que os caminhos
dos dois se cruzaram pela primeira vez, em uma missa. O que começou como um
namoro logo se transformou em compromisso. Um ano depois, estavam casados. “Eu
costumo dizer que Deus escreveu nossa história muito antes de nós sabermos.
Conheci Orlando na igreja e ali começou uma vida inteira. O que era para ser
apenas um namoro virou noivado e, depois, uma família que hoje é a nossa maior
riqueza”, recorda Francisca.
Os anos seguintes foram
dedicados à construção de uma família numerosa. Vieram seis filhos biológicos
e, ao longo da vida, mais quatro filhos adotivos. A família já morou em Brotas,
Curuzu, nos municípios de Tapiramutá e Canavieiras e hoje vivem em Jauá,
Camaçari, onde a família mora em um condomínio familiar.
“A luta foi muito grande.
Não foi uma vida fácil. Criamos nossos filhos trabalhando, economizando e
confiando em Deus. Mas nunca nos faltou coragem para seguir em frente”, afirma.
Uma união de 70 anos não se sustenta apenas pelo sentimento inicial, mas pela
capacidade de dividir responsabilidades, enfrentar dificuldades e permanecer
juntos mesmo nos momentos mais desafiadores.
Mas também tem muita
matemática envolvida. Completar 70 anos de casamento é uma façanha rara em
qualquer lugar do mundo. Para atingir essa marca, não basta apenas que a
relação resista ao tempo: é preciso que os dois cônjuges alcancem uma
longevidade igualmente incomum. Um casal que se casou aos 20 anos, por exemplo,
precisa chegar aos 90 para celebrar as bodas de vinho.
Considerando que a
expectativa de vida do brasileiro gira em torno dos 76 anos, chegar a sete
décadas de matrimônio é uma exceção estatística. Ao longo dessa jornada, o
casal compartilha cerca de 25,5 mil dias de convivência, o equivalente a mais
de 612 mil horas dividindo alegrias, desafios e conquistas.
Mais do que um marco
cronológico, 70 anos de casamento representam uma travessia pela própria
história. Especialistas que estudam longevidade apontam que uniões duradouras
costumam ter alguns elementos em comum, como companheirismo, capacidade de
adaptação e disposição para superar conflitos sem permitir que as diferenças se
tornem rupturas definitivas.
“Amor é importante, mas sozinho não faz um casamento durar 70 anos. É preciso respeito, paciência e amizade. Houve dias felizes e dias difíceis, como acontece com todo mundo. O segredo é não desistir um do outro”, resume Francisca.
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