Ilhéus sempre atraiu turistas. Nunca foi por planejamento, nunca foi por política pública estruturada, nunca foi por genialidade administrativa. Foi por gravidade. Pela natureza, pela história, pela cultura, pelo litoral que insiste em ser bonito apesar do abandono. O turismo ilheense sobreviveu, por décadas, não porque o poder público cuidou dele, mas porque a cidade resistiu. É importante deixar isso claro antes de qualquer análise: Ilhéus nunca foi um exemplo de gestão turística. Sempre foi um destino que se manteve vivo por inércia natural (sorte). O problema é que, agora, nem isso parece estar sendo respeitado, muito pelo contrário.
Enquanto
municípios vizinhos entenderam que turismo é política de Estado, Ilhéus seguiu
tratando o setor como evento de verão e pauta de marketing. Itacaré virou
referência nacional porque planejou, ordenou, qualificou e protegeu seus
atrativos. Porto Seguro transformou o turismo em engrenagem econômica séria,
com parceria público-privada, calendário previsível, promoção internacional e
gestão profissional. Aqui, o turismo sempre foi visto como detalhe decorativo.
A negligência é histórica. Basta lembrar que, nos anos 1980, Ilhéus abriu mão
de Serra Grande — hoje um dos destinos mais desejados do litoral sul da Bahia.
Um território que poderia fortalecer a economia ilheense foi negociado como
quem não compreendia o valor estratégico do turismo. O resultado é conhecido:
Uruçuca virou município litorâneo e perdemos um paraíso.
Mesmo assim, a
cidade seguiu atraindo visitantes. Porque o turismo tem uma virtude que outras
atividades econômicas não têm, ele democratiza renda. Não exige latifúndio,
indústria ou herança política. Permite que o pequeno comerciante, o ambulante,
o artesão, o motorista, a marisqueira e o guia sobrevivam. Talvez por isso
nunca tenha sido prioridade de governos acostumados a olhar apenas para grandes
interesses — a “troca” de Serra Grande também entra aqui, só não contavam, na
época, com a vassoura de bruxa. Hoje, não contávamos com uma gestão que
consegue piorar o que já funcionava mais de forma natural que estratégica e a
atual gestão vem conseguindo o que achávamos impossível: comprometer até aquilo
que sempre funcionou sozinho. Isso é inédito, inacreditável e revoltante, só
não vou vir com aquele “eu avisei”, pois não sou tão chato assim (ops!).
O discurso oficial
prometia recuperar e valorizar o turismo. A prática entregou o oposto. Atraso
no cadastramento do município no Mapa do Turismo Brasileiro. Conselho Municipal
de Turismo inexistente por meses. Perda de navios de cruzeiro. Comércio
relatando um dos verões mais fracos dos últimos anos. Uma temporada que acabou
antes de janeiro terminar. Some-se a isso decisões que revelam profundo
desconhecimento da alma da cidade, como retirar a tradicional celebração de
Iemanjá do Malhado para atender interesses que fogem da esfera pública,
assumindo mais um certo caráter de “ajudar os parças”. Tradição tratada como
obstáculo. Cultura deslocada como se fosse estrutura móvel. Isso não é política
pública. É inversão de prioridades, é desrespeito.
Mas seria
desonesto atribuir toda a responsabilidade apenas ao poder público. Há também
um problema estrutural dentro da própria sociedade civil ligada ao turismo.
Ilhéus não consegue se organizar em torno de uma causa comum. Cada setor parece
jogar para si e contra si, mesmo dentro do próprio setor. Hotelaria, comércio
tradicional, barracas de praia, restaurantes, guias, transporte de passageiros,
indústria cacaueira; muitos agem como se o objetivo fosse “sair na frente”,
“levar vantagem”, garantir o próprio quinhão imediato. O resultado é
previsível: um setor fragmentado, incapaz de pressionar, de planejar
coletivamente e de construir uma agenda sólida de desenvolvimento. A exceção
vem da economia solidária, que aprendeu, por necessidade, a agir de forma mais
unida, mais consciente e mais política na defesa do próprio espaço. Mas para
aqui, na defesa do próprio espaço, ainda sem planejamento, sem estratégia e sem
apoio.
Essa desunião
enfraquece o turismo, desestimula a profissionalização da mão de obra e facilita
a acomodação do poder público. Quando não há cobrança organizada, sobra espaço
para decisões inúteis, improvisadas, enviesadas e/ou claramente prejudiciais ao
desenvolvimento do setor. E é importante dizer que isso não dói nos grandes
donos de hotéis. Não dói nos grupos econômicos mais robustos. Quem sente
primeiro são os ambulantes, os pequenos comerciantes, os trabalhadores da
economia solidária, os que dependem diretamente do fluxo turístico para
sobreviver. A conta nunca chega igual para todos.
E, quando a gestão
falha na entrega, surgem outros sinais de desorganização. A imprensa local
passou a noticiar conflitos internos, tratamento inadequado a servidores e,
mais recentemente, uma sequência de nomeações que levantaram questionamentos
éticos sérios. Documentos publicados no Diário Oficial mostram exonerações
seguidas de novas nomeações envolvendo vínculos pessoais e familiares dentro da
estrutura do governo. Estamos falando de nepotismo e em possível afronta aos
princípios da moralidade e da impessoalidade que regem a administração pública.
Não sou eu quem trago as denúncias, apenas repito aquilo que vem sendo
publicado no próprio Diário Oficial da Prefeitura de Ilhéus e, em veículos de
imprensa que não estão na folha do poder municipal.
O mais preocupante
é que os casos não se restringem a uma única secretaria. Reportagens apontam um
padrão que se espalha por diferentes áreas do governo municipal: esposas,
companheiros e parentes ocupando cargos estratégicos, enquanto a cidade
enfrenta problemas básicos e serviços que não funcionam como deveriam. Quando
isso acontece de forma reiterada, deixa de ser coincidência e passa a ser
sintoma. E o sintoma, nesse caso, é de um governo mais preocupado em acomodar
os seus do que em organizar a casa.
Tudo isso ocorre
em um ambiente politicamente confortável. Sem oposição estruturada, sem
contraponto institucional forte, decisões são tomadas sem constrangimento
público. O governo faz porque pode. E quando pode tudo, costuma errar muito. O
silêncio oficial diante das denúncias não pacifica, apenas amplia a
desconfiança. Quem paga a conta não é o gabinete, nem o secretário. É a cidade.
Ilhéus não precisa
inventar o turismo. Ele já existe. Sempre existiu. O que falta é algo muito
mais básico e muito mais raro por aqui: respeito. Respeito pela história, pelas
tradições, pelo território, pelas crenças, pelos trabalhadores do setor e pela
inteligência da população. Mas falta também união. Falta uma força-tarefa real,
com sociedade civil organizada, com oposição ativa, com gente disposta a
colocar o dedo na ferida e parar de esperar que a natureza ou o improviso
resolvam o que só gestão, pressão e interesse coletivo podem resolver.
Porque quando até
a natureza, que sempre foi aliada, começa a não dar conta sozinha, o problema
já não é de potencial. É de gestão. E quando a gestão falha, e a sociedade se
cala ou se divide, fingir normalidade não é prudência. É conivência.
Isso precisa ser dito. Não como ataque pessoal. Mas como defesa do interesse público. Por Emenson Silva
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