A condução do inquérito do Banco Master pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e as suspeitas de que integrantes da Corte teriam se beneficiado financeiramente da relação com o banqueiro Daniel Vorcaro produziram um efeito negativo na imagem da instituição: a maioria da população não confia no tribunal, avalia que os magistrados não julgam com imparcialidade e que há envolvimento direto de alguns deles no escândalo.
As conclusões constam na pesquisa
AtlasIntel/Estadão, que mostra a confiança dos brasileiros nas instituições.
Segundo o levantamento, 60% dizem não confiar na Corte, ante 34% que dizem
confiar. Outros 6% não têm posição clara sobre a mais alta instância do Poder
Judiciário.
O porcentual de desconfiança é o
mais alto da série histórica da pesquisa, iniciada em janeiro de 2023. Na
época, os dois números estavam no mesmo patamar: 45% diziam confiar no Supremo,
enquanto 44% respondiam o contrário.
Em agosto de 2025, a maior
quantidade de críticos já era observada no levantamento, mas o número negativo
estava 8,7 pontos porcentuais abaixo do atual. Eram 51,3%. A confiança era
maior, 48,5% – 14,5 pontos acima do que é hoje.
“A autoridade dos tribunais está
ligada a três elementos fundamentais: independência, imparcialidade e
capacidade de decidir com objetividade. Quando você questiona um dos pilares da
autoridade do Supremo, que é a sua imparcialidade, ou seja, sua equidistância
em relação às partes, evidentemente isso afeta a confiança”, disse o professor
de direito constitucional Oscar Vilhena, da Fundação Getulio Vargas (FGV).
A AtlasIntel ouviu 2.090 pessoas
entre os dias 16 e 19 março, após o desgaste do Supremo atingir o seu auge com
revelações de que o ministro Alexandre de Moraes mantinha contato com Vorcaro,
inclusive com suspeitas de que teriam conversado no dia em que o banqueiro foi
preso pela primeira vez em novembro do ano passado. A margem de erro do
levantamento é de dois pontos porcentuais e a confiança é de 95%.
Para 66,1% das pessoas ouvidas, há
envolvimento direto de ministros do STF no caso Master. O número de pessoas que
dizem não ter opinião sobre o tema é 18,9%, maior do que os 14,9% que acreditam
que não há ministros ligados aos crimes cometidos por Vorcaro.
Além de Moraes, há indícios de
relacionamento de outros ministros da Corte com o banco investigado por fraudes
financeiras.
O ministro Dias Toffoli é sócio
anônimo de empresa que recebeu pagamento do cunhado de Daniel Vorcaro pela
venda da participação no resort Tayayá, no interior do Paraná.
O banco Master e a JBS repassaram
R$ 18 milhões a uma empresa de consultoria que fez pagamentos ao filho do
ministro Kassio Nunes Marques.
A percepção sobre o envolvimento de
integrantes do Supremo no caso se conecta com a avaliação de 76,9% dos
entrevistados de que há “muita influência externa (de políticos, partidos e
grupos poderosos) no julgamento”. Outros 13% dizem enxergar alguma ação externa
para interferir no processo, enquanto 6,1% avaliam que os procedimentos estão
sendo feitos de forma técnica e baseados na lei. Já 3,9% não sabem opinar sobre
o tema.
Para 53% dos entrevistados, o
processo de liquidação do Master não deve ser julgado pelo STF. Em
contraposição, 36,9% dizem que o caso deve ser analisado pela Corte. Enquanto
10,1% não sabem se a investigação deve ser analisada no tribunal.
Os dados demográficos mostram que o
STF tem maior confiança entre as camadas da população com maior renda familiar.
A faixa de quem ganha acima de R$ 10 mil é a única em que o porcentual positivo
é maior que o negativo. Segundo o levantamento, 48,5% dizem confiar na Corte,
enquanto 45,3% desconfiam.
As pessoas com renda familiar entre
R$ 3 mil e R$ 5 mil são as menos confiam na instituição, 69,6%. Os que dizem
confiar são 27,8%.
Ao analisar o posicionamento do
ponto de vista eleitoral, 96,5% das pessoas que votaram no ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) no segundo turno em 2022 dizem não confiar no Supremo, enquanto
0,7% relatam confiança na instituição. O cenário é o oposto entre os votantes
no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). São 71,4% os que confiam, ante
23,1% que não confiam.
De acordo Oscar Vilhena, da FGV, as
percepções dos eleitores de Lula e Bolsonaro e a desconfiança majoritária dos
entrevistados em relação ao STF estão diretamente conectadas. Segundo o
professor, a queda na confiança do tribunal pode ser explicada pela polarização
na sociedade brasileira e pelo protagonismo exacerbado da instituição em
grandes questões nacionais.
“Em um ambiente bastante
polarizado, como é o brasileiro ou o americano, quando se tem Cortes muito
proeminentes, ou seja, que se manifestam sobre questões políticas de maneira
muito reiterada, é natural que elas sejam capturadas por essa polarização”,
afirmou. “Nós temos uma Corte muito ativa, que eu chamo de supremocrática.
Então, é lógico que as pessoas vão dizer coisas boas ou ruins do tribunal
dependendo de como elas veem o posicionamento da instituição em relação às
causas em que acredita”.
Wallace Corbo, professor de direito
constitucional da FGV, avalia que a queda de confiança do Supremo pode estar
associada à dificuldade do tribunal em se desvencilhar da percepção de parte da
população que atua de forma política.
“A população espera de um tribunal
que ele não seja visto como uma parte integrante da política. Então, as pessoas
tendem a dar menos apoio para um tribunal cujos integrantes não veem mais como
juízes, mas como políticos. E, nesse ponto, o Supremo teve algumas dificuldades
contra isso”, disse.
“As pessoas tendem a perder a
confiança quando elas entendem que o tribunal não está seguindo padrões de
imparcialidade, ou mesmo de comportamento, esperados de juízes. Todo tipo de
notícia que envolve potenciais conflitos de interesse ou que envolvam decisões
que não passam pelo colegiado pode afetar efetivamente a visão de um tribunal”,
completou.
CÓDIGO DE ÉTICA TEM APOIO DA
MAIORIA DA POPULAÇÃO - A crise que atinge a Corte tem tido como principal
proposta de mitigação o código de ética encampado pelo presidente do STF, Edson
Fachin. O conjunto de regras a serem criadas sob responsabilidade da relatora
Cármen Lúcia tem o apoio de 57% dos entrevistados, que consideram a medida como
extremamente importante e que deveria ser a prioridade do STF.
Outros 18,6% avaliam que o código de ética é importante, mas não deve ser a prioridade do Supremo. Já 8,9% dizem que o texto não é nada importante e 6,1% que é pouco importante. Dentre os entrevistados, 9,4% dizem não saber se as normas podem contribuir para preservar a integridade moral e confiança pública do tribunal.
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